eu parira, tu pariras, ela parira, nós paríramos, vós paríreis, elas pariram VEM COMIGO? para você e por todas
Doula na pandemia e hospital

Doula na pandemia e hospital

Eu não sou a doula que vai acompanhar você no hospital. Sou a doula que vai te ajudar a ter segurança para que você possa seguir em frente com seu acompanhante. Eu não sou a doula que vai resolver o seu parto; vou te mostrar caminhos, te dar suporte e material para que você encontre o seu parto. Eu não sou a doula que é essencial a presença para você parir; eu sou a doula que vai te lembrar da sua própria força.

A doula no momento do parto auxilia a pariunte? Sim! Com certeza! Demais! O toque, o olhar, as palavras de apoio fazem a diferença? Estudos comprovam que sim! Se eu não acreditasse nisso, jamais teria seguido essa ocupação. Eu mesma tive uma doula durante o meu parto e por muito tempo repeti que “ela foi essencial para parir” até que, percebi que não é bem por aí. Ela foi essencial para que eu confiasse em mim mesma! Percebe a diferença? E o caminho começou a ser trilhado antes do parto.

Ambiente do parto

Em meio a pandemia que nos encontramos, o ambiente hospitalar se tornou grande foco de contagio e quanto menos pessoas circularem nesses ambientes melhor para o coletivo. Estou em isolamento social, saindo de casa apenas para ir ao mercado, tomando todos os cuidados necessários mas não posso garantir que não fui infectada. Nenhum de nós pode! Os estudos mostram um aumento na população assintomática e infectada. Penso que podemos ter responsabilidade social e diminuir a exposição em ambientes de risco – ambientes que possuem maior concentração de pessoas vulneráveis, com a imunidade baixa e em risco de complicações se infectados. Além de profissionais de saúde essenciais para cuidar do coletivo.

Se você escolheu parir no hospital por se sentir mais segura nesse ambiente tudo bem! É uma decisão bem importante; parir onde se sente mais segura! O que é bem diferente de mudar de planos para um parto domiciliar por medo do COVID. Entende? Uma coisa é a mulher que planeja um parto domiciliar no decorrer da gestação, outra é aquela que tinha como plano A um parto hospitalar mas muda de ideia pela pandemia. Vale pensar com muito carinho e atenção nessas decisões. Porque é importante ter bem claro que o plano B de um parto domiciliar sempre será um hospital. E para o parto desenrolar, você precisa estar se sentido segura… se parir em casa nunca foi pra você, provavelmente isso não vai mudar assim de uma hora para outra.

Lembrando que as recomendações mais atuais, indicam que mulheres com qualquer sintoma/suspeita de COVID-19 não devem parir em casa!

Escolhi não estar no ambiente hospitalar

Pois entendo que não posso garantir que não estou infectada; Não acho correto utilizar toda a paramentação necessária pois já chegam relatos de todos os cantos de falta de EPI´s para profissionais que estão na linha de frente (aqueles lidando diretamente com positivos Covid ou suspeitos).
Eu como doula sinceramente, nem sei direito usar EPI´s. Não estamos acostumados com toda essa paramentação. As chances de uso ineficiente são enormes – puro desperdício! Fora que pelo tempo de um trabalho de parto existe a necessidade de trocar os EPI´s algumas vezes…

Entendo que, sendo mais uma pessoa dentro do cenário do parto – se tiver alguma outra pessoa ali contaminada – posso ser mais uma pessoa a disseminar o vírus a outras pessoas.

Vou além; se uma gestante estiver contaminada (assintomática) adivinha quem é a pessoa que tem a maior probabilidade de ser infectada por ela durante um trabalho de parto? Com certeza a doula! Que é aquela que sustenta, abraça, segura as mãos… E com quantas pessoas a doula vai cruzar no seu caminho até chegar em casa? No próprio hospital, quantos profissionais da saúde podem ser impactados…

Não estou abandonando essas mulheres

Me coloco numa posição que entendo como mais segura para todos, pensando no coletivo e mais a frente. Assim como entendi a necessidade de isolamento social, entendo que não estar no ambiente hospitalar é uma forma importante de cuidar dos outros, não só daquela mulher. Inclusive resguardando esse bebê que terá contato com um ambiente com menos um ‘possível’ vetor.

Gestantes e puérperas entraram no grupo de risco segundo Ministério da Saúde, isso significa que precisamos resguardar e olhar com mais atenção a essas mulheres.

Todas as diretrizes recomendam equipe mínima de assistência. A doula tem sim um papel muito importante de suporte emocional, auxílio a lidar com as dores, diminuição de tempo de trabalho de parto e todos os benefícios que tanto conversamos. Mas, nesse cenário de calamidade na saúde quando se fala em reduzir a equipe, penso que devemos sim ficar de fora.

Dentro do ambiente hospitalar qualquer pessoa tem chances maior de contágio. Portanto, ao participar de um parto hospitalar aumentamos consideravelmente as chances de ser infectada, então para ter certeza de não transmitir para ninguém deveria ficar em isolamento total por 14 dias, o que significa não acompanhar nenhum outro parto, não ir ao mercado, não ficar com meu filho…

Respeito e admiro o trabalho de todos os profissionais da saúde que estão na linha de frente, cuidando dos nossos doentes. E por eles, que estão longe de suas famílias, trabalhando exaustivamente e vendo seus colegas serem infectados e até vindo a óbito, faço a minha parte. Tentando como posso diminuir o risco de contágio e propagação do vírus.

Por essas questões, não sou a doula que vai acompanhar você no hospital…

Sigo na preparação perinatal,

por hora todos os encontros na gestação são on-line. E acompanhando partos domiciliares – de máscara e paramentação necessária – e/ou início de trabalho de parto em casa até o momento de ir ao hospital. Avaliando caso a caso.

Estamos todos reinventando nossa forma de trabalhar, de lidar com o mundo. É um momento de transição e grande transformação. E usaremos com sabedoria as ferramentas que se apresentam. A internet é uma grande aliada nesse momento. Já temos relatos até de doulas acompanhando o trabalho de parto virtualmente.

Nesse cenário, o acompanhante que já é uma pessoa bem importante, pode ter ser mais presente. Ele nunca poderá fazer o papel de doula, mas na ausência da doula no cenário de parto hospitalar, o acompanhante pode sim, auxiliar mais a pariunte.

Não é preciso estar presente fisicamente para estarmos conectadas. Não é preciso ninguém para parir, além de si mesma. Não é preciso dar as mãos para acreditar.

Não sou a doula que vai acompanhar você no hospital, mas continuo sendo a doula que vai te auxiliar a encontrar o seu caminho e buscando a melhor forma de prestar uma assistência de qualidade, pautando meu trabalho em evidências científicas, segurança e respeito pela mulher como protagonista do parto.

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